Aquele não era um simples jardim ou uma simples fachada de alguma casa onde o morador gostasse de tudo cortado milimetricamente. Não, aquele jardim era diferente, era uma confusão de cores e espécies de plantas que no conjunto formavam uma visão estranhamente bela. As rosas estavam perdidas em meio aos espinhos e lírios.
Azaléias que de cima formariam a visão do formato de um oito deitado ou o símbolo do infinito, para os mais poéticos ou matemáticos, mas seja como for, formavam esse oito salpicado no meio por verde, vermelho, azul, amarelo e tudo o que a natureza poderia gerar.
Quando me toquei eu já estava ajoelhado olhando bem de perto todo o vão entre os caules das flores. Em meio aquele tumulto de verde havia espaços para que a luz do sol passasse e tinha algo de contemplativo em ver pequenos raios cortando toda aquela natureza. Era como se houvesse um outro mundo que necessitasse daqueles raios como nós necessitamos deles.
E atrás daquele pequeno cultivo de flores havia um casarão. Daqueles antigos com sacadas na frente e nesse havia uma senhora sentada numa cadeira de balanço com uma expressão de quem queria conversar, sempre fui de falar e não me agüentei, na frente da escadinha que dava para a porta da frente da casa perguntei se o jardim era dela mesma e ela disse que sim. Começamos a conversar e perguntei "porque a senhora deixa tudo daquele jeito, sem nenhum tipo de corte ou seqüência?" e ela me respondeu "porque a vida não é uma seqüência. Quantas vezes você realmente conseguiu, diretamente e sem interrupções, o que desejava?" eu não havia entendido e pedi para que explicasse. Por sua vez ela explicou assim: "A vida não é uma seqüência e muito menos obedece a uma ordem. Assim como na natureza a nossa vida é preenchida de diferentes sentimentos, desejos, vontades, sonhos, cores, pessoas e etc. Não há uma seqüência. Nós acreditamos que há, mas não há. O fato de eu falar com você não é uma seqüência de você ter parado no meu jardim, se não todos iriam parar e conversar comigo, mas não é isso que acontece. Por isso acreditar que a nossa vida é uma seqüência é aceitar que não podemos mudar ou fazer coisas diferentes todos os dias".
Eu disse para aquela senhora que havia entendido e que deveria voltar para casa, já era tarde e já devia estar em casa. Ela me deu um sorriso e eu fui embora com uma única coisa na cabeça. Podemos ser salpicados de diversas cores e jeitos, o impressionante é o resultado final de tudo isso.






